Sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Solenidade da Assunção da Virgem Maria

Leituras do dia

Saúdo os numerosos peregrinos, assim como o Padre Emmanuel Schwab, reitor deste santuário, que me convidou a celebrar convosco a festa da Assunção.

Maria ascendeu ao céu em corpo e alma: mesmo para o corpo, há um lugar em Deus. Isso é um consolo e um incentivo à resiliência, à esperança e à positividade, especialmente para os doentes, aqueles em situações de fragilidade e os idosos, que estão particularmente preocupados com a cultura da morte que parece prevalecer no discurso público e nas prioridades legislativas. 

Maria ascendeu ao céu, exaltada por Deus como uma mulher de sucesso. As leituras bíblicas nos falam de uma mulher vestida de sol, com a lua sob os pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça. E ainda: De agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada. O Todo-Poderoso fez maravilhas em mim.

Maria de Nazaré não foi uma mulher de sucesso, no sentido que entendemos hoje. Ela não era a estátua com uma bela coroa na cabeça. Mas foi uma mulher que teve uma vida intensa, repleta de alegrias e sofrimentos; uma mulher que, na escola da Palavra de Deus e na presença de Jesus, amadureceu em uma humanidade profunda, serena, acolhedora e sábia. 

A festa da Assunção da Virgem Maria ao Céu assume um significado especial no contexto do centenário da canonização de Santa Teresinha do Menino Jesus. Um centenário que está sendo celebrado em todo o mundo, e com particular significado aqui em Lisieux. De fato, por meio de uma imagem que lhe é cara, Santa Teresinha nos ajuda a compreender o profundo significado da festa de hoje.

No seu testemunho espiritual, reunido no livro póstumo História de uma alma, dirigida à sua superiora religiosa, Madre Marie de Gonzague, ela escreve: “Sabe, Madre, eu sempre desejei ser santa, mas, ai de mim! Sempre notei, quando me comparava aos santos, que entre eles e eu existe a mesma diferença que existe entre uma montanha cujo cume se perde no céu e o grão de areia escuro pisoteado pelos pés dos transeuntes; em vez de desanimar, disse a mim mesma: o Bom Deus não poderia inspirar desejos irrealizáveis; posso, portanto, aspirar à santidade apesar da minha pequenez; engrandecer-me é impossível; devo suportar-me como sou, com todas as minhas imperfeições; mas quero buscar o meio de ir para o Céu por um caminho pequeno, reto, curto, um caminho pequeno, completamente novo. Estamos num século de invenções; agora não vale mais a pena subir os degraus de uma escada; entre os ricos, um elevador a substitui vantajosamente. Eu também gostaria de encontrar um elevador que me elevasse até Jesus, porque sou pequena demais para subir a íngreme escada da perfeição” [Ms C 2].

Teresa compreendeu bem que jamais conseguiria galgar todos os degraus da virtude e da santidade usando apenas suas próprias forças. Encontrou na modernidade de seu tempo aquele famoso elevador cuja correspondência buscava na vida espiritual e que lhe pouparia o esforço de galgar todos os degraus que conduzem à santidade. Esse elevador eram os braços de Jesus nos quais ela escolheu se abandonar. 

Esta imagem do elevador é bela e instrutiva, especialmente quando contemplamos a Assunção de Maria ao céu. Maria, mãe de Jesus, antes mesmo de Santa Teresa, já havia percorrido o pequeno caminho. Podemos afirmar isso de uma forma que pode parecer banal, mas não é: Maria confiava em Deus.

Desde o início da criação, o Livro do Gênesis nos conta que o diabo procurou semear a dúvida entre os homens: a dúvida de que Deus estivesse do nosso lado, de que Deus se importasse com o homem. Ele chegou a apresentar Deus como um rival do homem, ciumento da liberdade do homem, invejoso do seu poder, a ponto de forçar a humanidade a confrontar o mal, o sofrimento gratuito e todo tipo de limitações diariamente.

Toda a literatura grega antiga está permeada por essa dúvida, essa suspeita. Deus tem ciúmes do homem e o pune constantemente. Portanto, é preciso se defender. E assim nasce uma religiosidade composta de práticas e leis a serem respeitadas para conter o mal enviado por Deus e negociar uma trégua com Ele. É assim que surge a superstição que se desenvolve entre muitas pessoas e é tão difundida hoje, mesmo entre aqueles que se dizem cristãos.

A grandeza de Maria, mãe de Jesus, foi ter destruído esta dúvida, ou seja, que Deus é inimigo do homem, e ter colocado, pelo contrário, toda a sua confiança em Deus que é salvador: lemos isto no hino do Magnificat, que brotou do coração de Maria quando encontrou a sua prima Isabel.

Não nos enganemos, não é tão fácil fazer isso, porque não há esforço maior na vida do que renunciar a salvar-se para se deixar salvar por Outro. Nesse sentido, Maria, mãe de Jesus, e Teresa nos levam a sair de nós mesmos e a confiar-nos ao Filho de Deus. 

Fazer da infância o caminho da santidade, como fez Santa Teresinha, não significa diminutivos, pequenos canteiros de flores coloridas, pétalas de rosas: significa colocar no centro a necessidade, a sede de amor, os braços estendidos para o alto na expectativa de que alguém o levante.

Um caminho para a santidade que também é para cada um de nós e, ao mesmo tempo, uma lição formidável para o nosso tempo. Para aqueles que acreditam que tudo deve ser controlado até o último momento de sua existência, a Virgem Maria e Santa Teresinha de Lisieux oferecem um caminho completamente diferente. Numa época em que os homens parecem redobrar seu orgulho em seu desejo de controlar a vida e a morte, Maria Ascendeu ao Céu e Santa Teresinha nos mostram o pequeno caminho. 

Um caminho pequeno, mas eficaz e seguro, pois nos leva a compartilhar a mesma força e vitalidade de Deus, nosso Pai, que quer que sejamos fortes com a sua força.

+ Celestino Migliore
Núncio Apostólico