Mercredi 18 2026 février
Quarta-feira de Cinzas – Ano A
Homilia do Padre Emmanuel Schwab
1a leitura: Joel 2, 12-18
Salmo: 50, 3-4, 5-6ab, 12-13, 14.17
2nd Leitura: 2 Coríntios 5:20-6:2
Evangelho: Mateus 6:1-6, 16-18
Se há uma certeza, é que um dia morreremos… A liturgia das cinzas serve para nos lembrar disso. Na segunda narrativa da criação, no Livro do Gênesis, a criação do homem é descrita com uma imagem surpreendente. Está escrito que "Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem se tornou um ser vivente." (Gênesis 2:7). Seria difícil encontrar uma imagem mais apropriada para descrever a fragilidade da vida humana: a humanidade é descrita como pó unido pelo sopro de Deus. No capítulo seguinte, após a Queda, o Senhor Deus anuncia à humanidade que, por ter se afastado da amizade de Deus por meio da desobediência, sendo pó, ela deve retornar ao pó. As palavras que acompanham esse gesto das cinzas, "Lembra-te que és pó e ao pó voltarás", nos levam a perceber que um dia morreremos.
Mas a Igreja nos oferece uma segunda mensagem: “Arrependam-se e creiam no Evangelho”, que é a pregação de Jesus e as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de São Marcos: um chamado à conversão, um chamado à vida (Marcos 1:15). Certamente, somos mortais, mas Deus não nos abandona à morte; Ele até preparou o Reino para nós.
O tempo da Quaresma que estamos iniciando marca o começo de um período de recriação de todo o nosso ser, um tempo em que reaprenderemos a manter os olhos fixos no Reino. E nesse caminho, Santa Teresa é uma ajuda preciosíssima.
Em uma carta para Céline:
Nossos pensamentos não estão na terra do exílio; nosso coração está onde está nosso tesouro, e nosso tesouro está lá em cima, na pátria, onde Jesus está preparando um lugar para nós com Ele. (LT 127 de 26 de abril de 1891).
Em outra carta, no ano seguinte, novamente para Céline: Jesus uniu nossos corações de uma maneira tão maravilhosa que o que faz um bater também faz o outro tremer… “Onde estiver o seu tesouro, aí estará o seu coração.”
seu coração. » Nosso tesouro é Jesus, e nossos corações são um só nEle. (LT 134 de 26 de abril de 1892).
E então, perto do fim de sua vida, em uma carta ao Abade Bellière:
Ah! Tua alma é grande demais para se apegar a qualquer consolo terreno. É no céu que deves viver de antemão, pois está escrito: “Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”. Teu único tesouro, não é Jesus? Já que Ele está no céu, é lá que teu coração deve habitar. (LT 261 de 26 de julho de 1897)
Sim, irmãos e irmãs, nesta Quaresma em que entramos, é importante que, ao mesmo tempo que nos lembramos de que somos pobres mortais, também nos lembremos de que fomos feitos para o Reino, que fomos feitos para o Céu. E como por vezes nos deixamos afundar nas preocupações da vida quotidiana, em apegos desordenados às coisas passageiras deste mundo, trata-se de reaprender a amar o Céu e a viver as nossas vidas em conformidade com o Céu.
Para alcançar isso, devemos travar esta batalha espiritual, onde o Evangelho de hoje nos apresenta três áreas principais de foco:
O de esmolas que abre nossos corações para o próximo, que abre nossos corações para a pobreza que nos cerca. A esmola que nos traz a alegria de dar — lembrem-se deste dito de Jesus, o único citado fora dos Evangelhos, que nos foi relatado por Paulo nos Atos dos Apóstolos: Há mais felicidade em dar do que em receber. (Atos 20:35). Enquanto tudo é feito para nos fazer acumular, e pensamos que encontraremos nossa felicidade nisso, a esmola nos mostra outro caminho, que é o da atenção ao nosso próximo e da partilha de nossos bens.
La oraçãoA oração, que é uma abertura para Deus, torna nossos corações disponíveis ao Senhor para que Ele possa vir e habitar em nós. A oração nos permite contemplar o Reino para que possamos viver nossas vidas nesta terra como cidadãos do Reino. Há alguns domingos, ouvimos as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12); essas Bem-aventuranças são como a carta magna do Reino.
E então o jejumO jejum purifica nossos desejos, aprofunda nossa saudade do Céu; o jejum questiona nossa relação com a criação, nossa maneira de usar os bens deste mundo, de usar a comida.
O Papa Leão XIII centrou sua mensagem para a Quaresma em três pontos: ouvir a palavra de Deus, jejuar e vivê-la em comunidade.
E a respeito do jejum, ele escreve o seguinte:
Embora a Quaresma seja um tempo de escuta, o jejum é uma prática concreta que nos prepara para receber a Palavra de Deus. A abstinência de alimentos é, na verdade, um exercício ascético muito antigo e insubstituível no caminho da conversão. Precisamente por envolver o corpo, torna mais evidente aquilo de que realmente ansiamos e o que consideramos essencial para o nosso sustento.
O jejum nos permite não apenas disciplinar o desejo, purificá-lo e torná-lo mais livre, mas também ampliá-lo para que se volte para Deus e se oriente para a prática do bem.
O jejum é essencial porque toca em algo fundamental. Deus não deixou a respiração à nossa vontade. Às vezes, respiramos conscientemente, mas na maioria das vezes, não pensamos nisso, e nossos corpos respiram por conta própria. No entanto, o alimento, o sustento, Ele devolveu à nossa liberdade: não comemos automaticamente como respiramos automaticamente. Cabe a nós obter nosso alimento, prepará-lo e compartilhá-lo. Assim, a questão da alimentação é eminentemente espiritual. É por isso que oramos no início de cada refeição: para nos conscientizarmos de que é um dom de Deus e que deve ser recebido diretamente das mãos de Deus, e não de qualquer maneira. O jejum, que consiste em privar-se de alimentos e, assim, experimentar simbolicamente a morte — sabemos muito bem que se pararmos de comer completamente, morreremos —, tem uma dimensão espiritual que nos convida a reconsiderar nossa maneira de nos nutrir.
Mas o Papa também fala de outros jejuns, incluindo este:
Gostaria, portanto, de convidá-los a uma forma muito concreta e muitas vezes impopular de abstenção: evitar palavras que ferem e magoam os outros. Comecemos por desarmar a linguagem, abandonando palavras duras, julgamentos precipitados, fofocas sobre os ausentes e incapazes de se defender, e calúnias. Esforcemo-nos, em vez disso, por aprender a medir as nossas palavras e cultivar a bondade: em família, entre amigos, no trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação e nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.
Entramos na Quaresma, conscientes de que somos mortais, mas que o Senhor preparou o Reino para nós e que se trata de nos prepararmos para acolher este Reino, no qual já podemos viver, procurando viver o Evangelho.
Este período da Quaresma nos conduz à grande festa da Páscoa: celebraremos solenemente a morte e ressurreição de Jesus. E então, por um período ainda mais longo que a Quaresma, o grande tempo pascal de 50 dias, nos alegraremos na vida do Reino, nos alegraremos no Céu, nos alegraremos na presença do Ressuscitado entre nós.
Finalmente, encerraremos este tempo pascal com a festa de Pentecostes, dom do Espírito Santo, dom do sopro de Deus que nos alinha com Ele para que possamos amar como Ele e para que já possamos viver pela graça do Céu.
« O Senhor formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem se tornou um ser vivente. »
Este é o resumo completo desta grande jornada que nos conduz da Quarta-feira de Cinzas ao Pentecostes. Hoje lembramos que somos pó, ouvimos o chamado à conversão para encontrar Cristo, que morreu e ressuscitou, e para nos deixarmos renovar profundamente pelo dom do Espírito Santo.
Bendito seja Deus que, a cada ano, cuida de nós para nos recriar constantemente e nos permitir avançar de graça em graça rumo ao Reino.
Amen.
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