Domingo 22 fevereiro 2026
Primeiro domingo da Quaresma – Ano A

Homilia do Padre Emmanuel Schwab

1a Leitura: Gênesis 2:7-9; 3:1-7a
Salmo: 50 (51), 3-4, 5-6ab, 12-13, 14.17
2nd leitura: Romanos 5, 12-19
Evangelho: Mateus 4, 1-11

Este relato das tentações de Jesus no deserto é, sem dúvida, uma narrativa construída, teológica e não histórica, que nos ajuda a compreender algo sobre o que estava em jogo na vida do Verbo encarnado, o Filho eterno do Pai eterno que se fez homem. Nessa humanidade, Jesus, por meio desse jejum de 40 dias e 40 noites, consente em estar em um estado de extrema fraqueza. Quando alguém jejua por muito tempo, depois de alguns dias, o corpo deixa de exigir alimento; passa a utilizar suas reservas. E quando não há mais reservas, é uma questão de comer ou morrer. E o Evangelho é muito claro quando nos diz: "Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome". Mas essa não é a fome que sentimos quando uma refeição é adiada; é um fim trágico: ou se come ou se morre. Como se Jesus quisesse se encontrar em um estado de extrema fraqueza o mais próximo possível do estado de fraqueza do homem pecador, aquele que é sem pecado.

E como sempre, o diabo ataca os pontos fracos; não ataca os pontos fortes. E como se trata de comer ou morrer, oferece-lhe algo para comer: "Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães". E Jesus responde com a Palavra de Deus, como se não tirasse a sua força de si mesmo: recebe-a do Pai através das Sagradas Escrituras; e, ao fazê-lo, é alimentado pela Palavra de Deus: "Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus". Então o diabo oferece-lhe outra coisa e tenta-o com a Palavra de Deus: "Joga-te daqui para baixo, porque está escrito: 'Ele dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te sustentarão nas mãos, para que não tropeces com o teu pé em alguma pedra'". Se o diabo é astuto, não é inteligente, pois no mesmo salmo que cita, o Senhor Deus também diz: "Esmagarás a víbora e o escorpião". E Jesus, novamente, com a compreensão da Revelação, com a compreensão da Palavra de Deus, responde: "Não ponham o Senhor, o seu Deus, à prova". As Sagradas Escrituras não estão aí para eu usar, mas para eu receber a Revelação de Deus.

E, finalmente, o diabo se revela, e, ao se revelar, Jesus consegue rejeitá-lo. Ele muda seu nome, chamando-o de “Satanás”. Diabolos, em grego, significa “divisor”; “shatan”, em hebraico, significa tanto “adversário” quanto “acusador”. Tendo confrontado o divisor que quer separá-lo do Pai, Jesus, buscando manter essa comunhão com o Pai, transforma o divisor em um adversário.

Este relato sobre tentações visa encorajar-nos em nossa própria jornada. Em francês, temos várias palavras: "tentation" (tentação) e "épreuve" (prova). Mas no grego, língua na qual recebemos os escritos do Novo Testamento, existe apenas uma palavra, às vezes traduzida como "épreuve" (prova), outras como "tentation" (tentação). E os apóstolos são unânimes: seja lendo São Tiago no início de sua carta, São Paulo no início de Romanos capítulo 5, ou São Pedro em sua primeira carta, todos nos dizem que as provações são uma oportunidade para o fortalecimento da fé, a ponto de São Tiago exclamar: "Irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois elas provam a integridade da sua fé" (Tiago 1:2). Não tenhamos medo das tentações, não tenhamos medo das provações em nossas vidas. Santa Teresa, no final de sua vida — isso pode ser encontrado no caderno amarelo — disse em certo momento:

Compreendo perfeitamente por que São Pedro caiu. Pobre São Pedro, ele confiou em si mesmo em vez de confiar unicamente na força de Deus. [...] Tenho certeza de que se São Pedro tivesse humildemente dito a Jesus: “Por favor, conceda-me a força para segui-lo até a morte”, ele a teria recebido imediatamente. (Caderno Amarelo, 7 de agosto, p. 4) Como enfrentamos as provações e tentações em nossas vidas? Ah, eu sei, em certas tentações, não temos mais nenhum desejo de nos voltar para o Senhor, porque a miragem que a tentação nos faz ansiar supera o desejo de estar com o Senhor, o desejo de estar com Jesus. É precisamente aí que devemos recorrer às profundezas da fé que o Espírito Santo desperta em nós, para nos apegarmos ao Senhor. Nunca seremos mais fortes que o diabo. Nunca seremos mais fortes que a tentação. Aquele que venceu o diabo foi Jesus. Aquele que pode nos capacitar a enfrentar a tentação, permanecendo unidos a Deus, resistindo ao mal e escolhendo o bem, é o Salvador: Jesus. Todos nós somos descendentes de Adão, todos nós somos feridos pelo pecado, e como Paulo nos disse: “Pois assim como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um só homem muitos serão constituídos justos”. Trata-se de estar com este, com Jesus, que nos justifica com a sua justiça.

Durante o período da Quaresma, as diferentes atitudes espirituais às quais somos convidados — penso novamente na esmola, na oração e no jejum, de que ouvimos falar na quarta-feira — essas diferentes atitudes servem para nutrir nossa união com o Senhor, para que possamos estar cada vez mais unidos a Jesus.

Na oração inicial da Missa, pedimos a graça de "crescer na compreensão do mistério de Cristo e buscar a sua plenitude — este mistério — através de uma vida que lhe corresponda". O desafio da Quaresma é conhecer Jesus cada vez mais intimamente, estar cada vez mais intimamente unidos a Ele e ter as nossas vidas transformadas por esta união com Jesus. Não nos esqueçamos: em todos os "esforços quaresmais" que desejamos fazer, o objetivo é que sejamos mais íntimos de Jesus, que isso nos leve a crescer no nosso conhecimento interior de Jesus, que estejamos mais unidos a Jesus. Em última análise, nada mais importa. E como podemos verificar se esta união mais íntima com Jesus é real nas nossas vidas? Há apenas um critério: a nossa caridade para com os nossos irmãos e irmãs cresce? Se me torno mais paciente, se me torno mais gentil — não magicamente, mas através do esforço —, se me torno mais prestável, se me torno mais generoso, estes são sinais positivos de que não me iludo quando digo que procuro estar mais perto de Deus. Mas se eu permanecer irritável, impaciente, desdenhoso dos outros e assim por diante, tenho certeza de que todos os meus esforços serão em vão. O único critério é a caridade: aquela caridade que está no coração de Cristo e que é derramada em nossos corações pelo Espírito Santo (cf. Rm 5,5).

Peçamos sinceramente a graça, ao celebrarmos esta Eucaristia do primeiro domingo da Quaresma, de nos deixarmos unir cada vez mais a Jesus, nosso Salvador.

Amen.